Como escapar das receitas e fazer Agricultura Sintrópica a partir do seu lugar

Originalmente publicado em https://cepeas.org/publicacoes/como-escapar-das-receitas-e-fazer-agricultura-sintropica-a-partir-do-seu-lugar/

Se hoje alguém me perguntasse qual é o maior entrave para tornar agricultura sintrópica a tecnologia mais comum no meio rural...

Fernando Rebello durante um workshop no CEPEASFernando Rebello durante um workshop no CEPEAS

… eu responderia que esse entrave é de cunho pedagógico. Aliás, foi essa resposta que Joachim Milz, um dos alunos mais antigos de Ernst Götsch, e criador da ECOTOP, me deu algumas semanas atrás.

Fiquei pensando bastante sobre essa questão e, quando busco uma resposta, surgem reverberações de conversas com o próprio Ernst. Certa vez indaguei ao Ernst: qual a receita pra não ficar preso a receitas? Com a simplicidade de quem sabe o que está falando ele disse: “Basta conhecermos a função ecofisiológica das plantas.”

Então topei com outro problema: o que é função ecofisiológica das plantas?

Todas as plantas que cultivamos hoje evoluíram cada uma por milhares de anos, junto com outras plantas, sejam os grãos como milho, soja, feijão, arroz, ou as árvores frutíferas, todas sempre estavam acompanhadas por outras plantas. Não há monocultura na natureza. Assim, cada espécie por milhares de anos se adaptou a um determinado clima, solo, companheiras, porcentagem de sombra, quantidade de água etc. O problema de nossa pesquisa agrícola é que nunca observamos profundamente a moldura do quadro, apenas olhamos a questão econômica. “Nossa! Esse grão é muito saboroso! Incrível essa fruta, maravilhosa!”. Assim sacamos, ou saqueamos a natureza, tendo um olhar muito limitado. Além de comestíveis, as plantas são seres sencientes também, ficam felizes (belas) quando estão em um ambiente semelhante ao qual evoluíram por milhares de anos (e até mesmo quando recebem elogios). E ficam tristes (atrofiadas, doentes) quando maltratadas, inclusive “emocionalmente” (mesmo com condições físicas ótimas de solo, água etc).

Um cultivo típico do Ernst, na Bahia, onde todas as espécies crescem juntas.

O que entendi quando Ernst diz que precisamos conhecer a função ecofisiológica das plantas: precisamos saber para cada espécie algo como: nome popular e científico, resistência à poda, estrato que a espécie ocupa na mata, presença ou não de folhas caducas, arquitetura da copa, época de floração e frutificação, utilidades para o ser humano e outros animais, tipo de sistema radicular (superficial ou profundo, fasciculado ou pivotante), velocidade de crescimento, qualidades da semente (presença de dormência, semente recalcitrante ou ortodoxa etc.), se a espécie ocorre naturalmente em terra boa ou fraca, tipo de solo (argiloso, arenoso, misto), tipo de relevo no qual mais ocorre (baixada, cabeceira de nascente, boqueirão, topo de morro etc.), ciclo de vida da espécie. Fundamental também é valorizar quem tem esse conhecimento, pois o resgate do saber local e tradicional é base importante para o sucesso de nossas agroflorestas.

Nossa grande dificuldade hoje é ter uma pedagogia que leve o agricultor a enxergar as plantas a partir desse ponto de vista, uma pedagogia que guie o agricultor pelo mundo natural, pois o mundo está pronto, nós é que estamos desconstruindo o Paraíso. Se não fosse assim, por que quando abandonamos um campo e deixamos ele em pousio, a fertilidade da terra volta?

Penso que o caminho é usarmos a sabedoria do espelho, nos colocarmos no lugar de nossas plantas e animais: se eu fosse essa planta gostaria de receber uma pulverização semanal de veneno? Se eu fosse esse porco, ou essa galinha, me sentiria bem nesse lugar? Mas só conseguimos responder a essas perguntas se conhecemos, de fato, a origem dessas plantas e animais. Como era o lugar de onde eles vieram? Como viviam em seu lugar de origem? Tive a felicidade de encontrar plantas de abacaxi nativo (Ananas ananasoides) em locais de natureza prístina, no interior do Parque Nacional em que trabalho. Onde observei essas populações, as coroas de plantas largadas pelos animais em pleno sol se tornaram mudas raquíticas, em comparação com as plantas protegidas pela copa das árvores

Planta de abacaxi a pleno Sol, a 10m de uma população de plantas protegidas pela mata.
Plantas de abacaxi protegidas por um tênue dossel de árvores.
Acima das plantas mais viçosas de abacaxi nativo, um suave dossel.

Então é fundamental conhecer profundamente as espécies cultivadas que crescem bem em nosso lugar, em seguida, as espécies nativas do nosso lugar e, por último, as espécies exóticas que vão bem em nosso lugar. Em um livro publicado pelo pesquisador Paulo Cavalcante do Museu Emilio Goeldi, do Pará, foram listadas 150 espécies de frutíferas que crescem bem na Amazônia, entre nativas e exóticas. Nosso grande desafio é muitas vezes ter que começar do zero porque, quando decidimos estudar as plantas, nossa ciência não as classificou segundo critérios naturais, mas partiu de uma lógica racional, analítica e antropocêntrica que, muitas vezes, coloca a economia como alicerce desse conhecimento. Como exemplo temos o “manejo florestal sustentável”, o combate a pragas e doenças…

É urgente produzirmos um conhecimento que tenha como alicerce a ecologia. Porque como disse Satish Kumar, filósofo indiano, como podemos cuidar da casa, fazer a gestão da casa (oikos = casa, nomein = administração), se não sabemos como ela funciona, se não conhecemos a ecologia da casa (oikos= casa, logia = estudo). Não vamos achar as respostas às nossas perguntas se procurarmos no lugar errado.

Para tornar a agricultura sintrópica a tecnologia mais comum do meio rural precisamos urgentemente tornar esse conhecimento de como a casa funciona acessível. Podemos até experimentar alguma receita mas, se não soubermos a função de cada ingrediente dessa receita, seremos como o chef de cozinha que apenas copia receitas e que nem imagina como fazer uma panqueca se, de repente, acabam-se os ovos.

O primeiro passo é começar com o que temos. Outro dia li um livro sobre os Hunza, um povo do norte da Índia que comumente vivia (ou vive, se a globalização não chegou até eles ainda) mais de cem anos, sem qualquer doença e com uma resistência de fazer inveja a qualquer triatleta profissional. A alimentação deles é baseada em trigo, lassi (tipo de um iogurte) e principalmente frutas (vou escrever tudo no presente com o desejo de que eles ainda vivam bem e felizes). E um detalhe: a fertilidade dos campos de cultivo é mantida pela água do degelo que vem de muitos quilômetros de distância por canais centenários construídos manualmente e, junto com a água, vem o silte, rocha moída, uma poeirinha, rica em minerais que é arrastado junto. Eles bebem dessa água e cultivam seus campos com ela. Tudo indica que é isso também que os mantém tão saudáveis por mais de cem anos. Macro e micronutrientes em profusão, em um linguajar ocidental, uma terapia ortomolecular cotidiana e de graça. E ia me esquecendo: raramente comem carne. Hoje muitos de nós lutamos com um tal de glúten, dietas, alergias.


Livro “The wheel of health: the source of long life and health among the Hunza”

Mas enfim, o porquê lembrei dos Hunza é que logo vem à nossa mente a ideia de querer copiar a receita de longevidade dos Hunza. Então, pensei comigo, tenho que plantar bastante frutas em minhas agroflorestas, e lá fui eu. Quando estava preparando um canteiro para as hortaliças, olhei para aqueles araçás nativos, árvores velhas e grandes que já estavam lá, e pensei comigo: o que eu faço com vocês? Quando estava roçando a área, perto de um araçá, achei um frutinho do tamanho de uma acerola. Dei uma mordida e olhei, sem bicho, glup, aah! Parece que a providência divina colocou aquele temporão ali, naquele exato momento pra me dizer: acorda! As frutas já estão aqui, só precisa zelar da gente!

Imediatamente passei longe com a roçadeira e tratorito. Agora estou preparando o pó de rocha, esterco, tocos e farta cobertura de capim pra esses queridos araçás. Agora pensei na infinidade de cajuís que já temos, araçazinhos e eu lutando pra plantar frutas! Penso que partir do que temos é isso. Existem tesouros em todo lugar. Nosso Planeta é sagrado, só precisamos ter olhos para isso.

Nessa primavera vamos ter muita fruta.

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